sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Fantástico F

Firulisticamente falando,
faço floreios
e fico fitando o fundo da fala.

sábado, 25 de agosto de 2007

de tudo ficou um pouco

RESÍDUO

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).


Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.


Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.


Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.


Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.


Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço


Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...


De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.


E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Que AZÃO AZÃO azinho azinho, que nada!

Eu sei, adoro palavras que são atípicas. Cada vez que vejo uma, sou obrigada voluntariamente a rumar ao dicionário, chamado vulgarmente de "pai-dos-burros" , onde existem vários sêmens - as palavras -, e que está louco para penetrar na nossa massa cefálica. Eis uma sumária divagação, um esboçinho, acerca de uma provável fertilização do humano com o livro. Isso levando em conta apenas o campo morfológico, tá legal?
Penetrar nas palavras e vice-versa, um ritual sagrado eu diria. Feto da assimilação, desenvolvimento do significado e o nascimento de novas e infinitas combinações.

domingo, 19 de agosto de 2007

pré - haver

sofregamente, há horas que não passam
inacreditavelmente, há horas em que o tempo voa
indubitavelmente, há quem viva
obscuramente, há quem sobreviva.

domingo, 12 de agosto de 2007


"A gente vai contra a corrente/ Até não poder resistir/ Na volta do barco é que sente/ O quanto deixou de cumprir/ Faz tempo que a gente cultiva/ A mais linda roseira que há/ Mas eis que chega a roda viva/ E carrega a roseira prá lá.../ Roda mundo, roda gigante/ Roda moinho, roda pião/ O tempo rodou num instante/ Nas voltas do meu coração..."

Roda Viva_Chico Buarque

sábado, 11 de agosto de 2007

Divã?

É só o que sei: era o último quarto. Ele abriu a porta para eu ver o cômodo. Tentativa demorada mas com sucesso. Era um quarto diferente. Estava com um pouco de luz, uma luz amarelada quase nula. Senti o cheiro do lugar- puro mofo. Cheiro de armário com traças, inacabado, cama clara. Um criado-mudo com espelho à frente. Havia um banquinho em frente ao móvel. Tudo tão simplório, tão cor de madeira, tão apagado. Por que será que eu entrei lá?
Dei uma primeira passada adentro. Era o primeiro em que eu entrava. Os demais não me atraíram tanto quanto esse. Será porque esse necessitava de cuidados? - Lá vai ela querer dar uma de samaritana...- Entrei, mas logo me detive e passei a observar o quarto: cama de casal com lençol, cama feita, simples-simples. Ao lado aquele móvel que me atrai subitamente, um divã. Era de um couro sintético com uma pequena elevação, com uma almofada em forma de cilindro. Eu só sei que olhei para aquele móvel com tanto carinho, de uma forma estranhamente maternal e fitei-o deslumbrada, me perguntando interiormente: Mas e esse divã?
O rapaz não sabia de minha pergunta, mas prontamente vendo que em mim havia surgido um ponto de indagação, um X muito latente, um por quê que doía nos meus olhos, fitou-me e disse : "Mas isso não significa só a morte". Virei meu rosto em sua direção, depois do vislumbre com o objeto. Nada mais pude compreender, ele nada mais disse também. Renasço em mim.

CMC

domingo, 5 de agosto de 2007

Bandeira

de: Zeca Baleiro
- porque essa letra me deixa loucaaa!

Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio
Pra sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber o teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for
Eu não quero aquele eu não quero aquilo
peixe na boca do crocodilo
braço da vênus de milo acenando ciao
Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro
Se bem me lembro
O melhor futuro este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o tejo me escorrendo das mãos
Quero a guanabara quero o rio nilo
Quero tudo ter estrela flor estilo
Tua língua em meu mamilo água e sal
Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida vida noves fora zero
Quero viver quero ouvir quero ver
(Se é assim quero sim acho que vim pra te ver)