Noturna negativa
Noite. As portas do trem deram passagem a ela. Pessoas que se vêem mas não se olham na cara. Ela pisou com cuidado, olhou para o vão da porta do trem e pensou: "Acho que entalaria aqui!". Pensou o quão tortuoso seria cair nesse pequeno vão, mas qual seria a diferença de cair nesse vão e cair diariamente nos desgostos do dia-a-dia?
Nenhuma. Talvez a única diferença seria a da queda : nesse vão, as marcas viriam a curto prazo ao passo que diariamente ela perdia a sensibilidade e cair já não era o problema, o problema era levantar.
Não havia lugar para sentar. Paciência. Fica em pé.
Noite. Como a cidade corre no trem, como a vida corre, a vida dela corre. Olha pela janela, seu rosto está do outro lado, refletido. Meu outro lado, pensou. Observou pelo reflexo, enfim, depois de vários meses o quanto seu rosto havia mudado : a cicatriz perto da sobrancelha, as marcas de tensão perto da testa, o olhar - este era o mais diferente - estava mudo, inexpressivo, cansado, ela sentia isso. Sentia que estava perdendo a alma... Por quê as coisas estavam a conspirar contra ela? Descuido de tudo: físico, intelectual.
Não havia motivos para isso (havia?), mas ela estava desse jeito. Maldição! Precisava se amar. Voltou então seu rosto para o trem e percebeu que era amada por todos, mesmo por aqueles que não a viam no trem. Era um amor que não pedia nada em troca - o verdadeiro. Viu que podia passar afeto e senti-lo, viu compaixão. As pessoas tinham , assim como ela , um semblante de desânimo.
No íntimo, não negou a situação, mas sentiu um facho de ânimo a sondar-lhe : não amoleça, não desmorone, tente , será só um pouco difícil.
Nenhuma. Talvez a única diferença seria a da queda : nesse vão, as marcas viriam a curto prazo ao passo que diariamente ela perdia a sensibilidade e cair já não era o problema, o problema era levantar.
Não havia lugar para sentar. Paciência. Fica em pé.
Noite. Como a cidade corre no trem, como a vida corre, a vida dela corre. Olha pela janela, seu rosto está do outro lado, refletido. Meu outro lado, pensou. Observou pelo reflexo, enfim, depois de vários meses o quanto seu rosto havia mudado : a cicatriz perto da sobrancelha, as marcas de tensão perto da testa, o olhar - este era o mais diferente - estava mudo, inexpressivo, cansado, ela sentia isso. Sentia que estava perdendo a alma... Por quê as coisas estavam a conspirar contra ela? Descuido de tudo: físico, intelectual.
Não havia motivos para isso (havia?), mas ela estava desse jeito. Maldição! Precisava se amar. Voltou então seu rosto para o trem e percebeu que era amada por todos, mesmo por aqueles que não a viam no trem. Era um amor que não pedia nada em troca - o verdadeiro. Viu que podia passar afeto e senti-lo, viu compaixão. As pessoas tinham , assim como ela , um semblante de desânimo.
No íntimo, não negou a situação, mas sentiu um facho de ânimo a sondar-lhe : não amoleça, não desmorone, tente , será só um pouco difícil.

